O Advogado que Lê para os Outros, mas se Esquece de Ler para Si Uma reflexão sobre a advocacia, a leitura e o crescimento pessoal em Angola
Por Redação Acima da Lei em
O Advogado que Lê para os Outros, mas se Esquece de Ler para Si
Uma reflexão sobre a advocacia, a leitura e o crescimento pessoal em Angola
Por Helder Domingos | Jurista
Nós, juristas e advogados, lemos para viver.
Lemos leis, contratos, processos, acórdãos, pareceres, petições e mensagens que, muitas vezes, chegam quando o dia já deveria ter terminado. A profissão jurídica exige uma relação permanente com as palavras, porque uma interpretação errada, uma disposição legal esquecida ou um facto despercebido pode fazer diferença num processo.
Mas há uma pergunta que raramente fazemos: quando foi a última vez que lemos alguma coisa simplesmente porque queríamos ler?
Não para preparar uma audiência, responder a um cliente ou encontrar determinado artigo de lei. Apenas para nós.
A rotina transforma facilmente a leitura, que antes podia representar descoberta e prazer, numa obrigação profissional. Depois de um dia inteiro entre documentos e prazos, chegamos a casa, olhamos para aquele livro comprado há meses e pensamos: “No fim de semana começo.” O fim de semana chega, aparecem outras responsabilidades e o livro permanece fechado.
talvez, com isso, estejamos a perder mais do que o hábito de ler. Podemos estar a perder uma importante forma de pensar e de alimentar a nossa curiosidade.
Um bom jurista não deve conhecer apenas o Direito. Por detrás de cada processo existe uma pessoa; por detrás de um contrato existem expectativas; por detrás de um despedimento existe alguém preocupado com o seu sustento; e por detrás de muitos conflitos existem famílias, medos, necessidades e histórias humanas.
Por isso, a literatura, a história, a filosofia, a economia, a psicologia ou até um simples romance podem ensinar ao jurista algo que nenhum Código consegue transmitir por completo: antes de existir um processo, existe uma pessoa.
Em Angola, precisamos de profissionais do Direito tecnicamente preparados, mas também intelectualmente curiosos e humanamente atentos. Juristas que estudem as leis, mas que sejam igualmente capazes de questionar, investigar, conhecer a história do país, compreender a sociedade e acompanhar as suas transformações.
Talvez, portanto, não precisemos simplesmente de ler mais. Precisamos de voltar a gostar de ler.
Não é necessário começar com metas de vinte livros por ano ou cinquenta páginas por dia. Podemos começar com uma pergunta muito mais simples: “O que gostaria realmente de ler hoje?”
Pode ser história de Angola, literatura africana, filosofia, uma biografia, poesia ou um romance que nada tenha que ver com Direito. O importante é recuperar aquela curiosidade que nos faz fechar um livro à noite desejando voltar a abri-lo no dia seguinte.
A advocacia ensina-nos a ler procurando respostas para os outros. A boa leitura ensina-nos também a formular melhores perguntas para nós próprios.
Por isso, deixo um pequeno desafio aos profissionais do Direito: peguem novamente naquele livro esquecido. Leiam cinco páginas, se forem cinco; dez, se forem dez. Não transformem a leitura em mais uma obrigação.
Talvez nunca tenhamos deixado de gostar de ler. Talvez tenhamos apenas passado demasiado tempo a ler para os outros e pouco tempo a ler para nós próprios.
E um jurista que lê por prazer não se torna apenas mais culto. Torna-se também mais atento, mais humano e alguém que nunca deixou de aprender.
Dr. HD
Jurista
Redação Acima da Lei Equipa editorial de Acima da Lei.
Tópicos: Tribunais, justiça, lei, Advogados e Escritórios de advogados
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